O Selo Sala de Aula apresenta os artigos de opinião produzidos pelos estudantes de Gêneros e Estilos Jornalísticos, em uma atividade proposta pelo professor Dr. Márcio Miranda Alves, docente do curso de Jornalismo da UCS.

Para escrever os textos, os estudantes escolheram e delimitaram um tema, definiram uma tese e pesquisaram notícias, dados e outras evidências para sustentar seus argumentos. O desafio foi defender um ponto de vista de forma clara e fundamentada, contribuindo para o debate público.

Confira os artigos dos estudantes e conheça os temas e as perspectivas que eles escolheram trazer para a discussão!

Criado pelo Comunicaverso, o Selo Sala de Aula dá visibilidade às atividades desenvolvidas nas disciplinas e ao protagonismo dos estudantes.

O último humano

João Vittor Gomes

Não há nada mais sagrado que o direito ao erro e à imperfeição. São eles, junto aos nossos acertos, que nos tornam humanos. É uma risada esquisita, um nariz torto, o jeito confuso que alguém escreve ou fala. É o que faz José não ser Pedro. O problema? Hoje parece haver uma inquisição contra a imperfeição. E isso está presente em todos os âmbitos. Olheiras? Filtro. Desafinou? Autotune. Foi prolixo no texto? Chat GPT resolve. Mas se uma ferramenta eliminar todas as nossas imperfeições, o que é que sobra?

A internet nasceu como uma forma de conectar as pessoas e compartilhar conhecimento. Talvez uma das maiores revoluções da humanidade. Se alguém voltasse há alguns anos e dissesse que um brasileiro e um japonês poderiam conversar ao vivo, cada um de sua casa, essa pessoa receberia um convite para conhecer de perto as belezas de um quarto no manicômio. Se voltarmos mais um pouco, talvez a convidassem para investigar o interior de uma fogueira.

Criamos a maior ferramenta de comunicação da história. A ironia? Atualmente o tráfego na internet é feito, em sua maioria, por robôs. Segundo dados da CloudFlare, mais de 53% do tráfego da internet em 2025 foi feito por bots. Pela primeira vez, a atividade de máquinas superou a humana. Hoje estamos confinados em um castelo, sobrevivendo ao cerco das hordas cada vez maiores de conteúdos artificiais e produzidos em massa. Em 2026, músicas totalmente geradas por IA chegaram a representar mais da metade dos novos uploads diários da Deezer (plataforma de streaming musical). Hoje qualquer pessoa consegue produzir uma música em segundos, perfeitamente afinada e no tempo certo. Se isso tivesse acontecido no passado, será que teriam surgido Beatles, Queen ou Elvis? Eles eram artistas excelentes, mas possuíam um defeito terrível. Não eram perfeitos. Desafinavam, esqueciam a letra, cantavam mais rápido ou devagar que o ideal, cada um tinha algum atributo que os diferenciava dos demais. Eram, em suma, humanos.

Gosto de saber que por pior que seja algo, ainda assim consigo reclamar sobre isso. Porque isso foi feito por alguém com corpo e alma. Imagine tentar discutir com um robô. Tarefa meio inglória, não? Agora veja como estão as coisas. Tudo tão perfeito e ao mesmo tempo tão vazio. Morto. Um estudo publicado na Nature Human Behaviour, que analisou cerca de 880 mil textos, encontrou evidências de que a escrita se tornou menos diversa após a popularização de ferramentas de inteligência artificial. Segundo os pesquisadores, essas ferramentas podem preservar o sentido de um texto, mas diminuir aquilo que o torna diferente dos demais.

No final, tornam-se como rosas de plástico. Bonitas, perfeitas e completamente iguais, sem alma.

A IA não é um vilão. É apenas uma ferramenta. A lâmina que assassina em um beco escuro, também salva em uma maca de hospital. A tecnologia não é nossa maior inimiga, pelo contrário. Amo ser capaz de pagar minhas contas sem sair do sofá (o amor é pelo sofá, não pelas contas), escutar uma música gravada há mais de 50 anos que nunca teria oportunidade de vivenciar, ou falar por minutos e ter a transcrição pronta em segundos. O ponto é que uma ferramenta deveria ampliar o que somos capazes de fazer e não substituir aquilo que nos torna quem somos.

Se continuarmos assim, pode ser que a raça humana seja extinta. Sabe por quê? Não porque não haverá mais humanos a caminhar sobre a Terra. Mas, talvez, porque não existirá mais ninguém com condições e coragem o bastante para ser imperfeito, de ser quem realmente é. E quando o último dessa espécie desaparecer, que anunciem a todos: aqui jaz o último humano!

Os riscos do Discord para adolescentes e mulheres

Laura Maschio Palma

Quando pensamos em redes sociais, geralmente imaginamos espaços para conversar, fazer amizades e compartilhar interesses. O Discord também surgiu com essa proposta e se tornou uma plataforma bastante utilizada para comunicação entre diferentes comunidades. Porém, quando um ambiente que reúne tantas pessoas não consegue fiscalizar adequadamente o que acontece dentro dele, pode deixar de ser apenas um espaço de conversa e se tornar um lugar de risco.

O Discord deve ser suspenso porque a falta de fiscalização pode expor adolescentes e permitir a propagação de discursos de ódio, misoginia e ideias machistas. Essa situação é ainda mais preocupante quando pensamos que muitos usuários são jovens, que podem ter mais dificuldade para reconhecer situações de manipulação, violência ou radicalização. Um exemplo recente mostra a gravidade do problema. Em agosto de 2026, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil após um caso de suicídio envolvendo uma adolescente de 13 anos. Segundo as investigações divulgadas na imprensa, a jovem teria sido incentivada por outros usuários durante uma transmissão. O próprio vice-presidente de Segurança e Confiança do Discord reconheceu posteriormente que a plataforma “não foi rápida o suficiente” para agir diante do caso.

Além dos riscos diretos para adolescentes, existe também o problema da misoginia. Comunidades que divulgam ideias de grupos conhecidos como red pill e incel podem transformar a frustração em discursos de ódio contra mulheres. A pesquisadora Letícia Cesarino, que estuda processos de radicalização digital, destaca que a adolescência é uma fase especialmente vulnerável à radicalização e que plataformas digitais podem contribuir para a exposição contínua de jovens a discursos extremistas.

Essa discussão também pode ser relacionada à série Adolescência, produzida pela Netflix, que apresenta a história de um jovem envolvido em um caso de violência e mostra como ideias presentes no ambiente digital podem influenciar adolescentes. A série não fala especificamente sobre o Discord, mas ajuda a entender como questões que parecem estar apenas na internet podem ter consequências na vida real.

É verdade que o Discord também possui usos positivos. A plataforma pode ser utilizada para estudar, conversar com amigos, participar de comunidades e compartilhar interesses. Além disso, a empresa afirma ter adotado novas medidas de segurança no Brasil, como verificação de idade, filtros de conteúdo e configurações específicas para proteger adolescentes. Porém, essas medidas precisam ser suficientes para garantir que os usuários estejam realmente protegidos. Por isso, não se trata de impedir que as pessoas tenham espaços para conversar na internet, mas de questionar até que ponto uma plataforma pode continuar funcionando normalmente quando existem falhas na proteção de seus usuários. Se a fiscalização não consegue acompanhar os riscos, principalmente para adolescentes e mulheres, é necessário exigir mudanças mais rigorosas. A liberdade de comunicação não pode estar acima da segurança de quem utiliza essas plataformas.

Mulheres brasileiras na política

Milena Dalcin

Mesmo nós mulheres constituindo a maioria da população brasileira (51,8%) e de representarmos a maioria do eleitorado (52,65%), ainda estamos longe de ser maioria na política nacional. O Brasil está entre os piores colocados no ranking mundial de representação feminina na política, ocupando o 133º lugar entre os 183 países avaliados, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e da União Parlamentar Internacional. A dificuldade em encontrar mulheres dispostas a concorrer é usada pelos dirigentes dos partidos políticos como argumento para dificultar cotas, mas a barreira real é a falta de abertura interna, apoio estrutural e o controle masculino da estrutura partidária.

Desde 2009, a legislação eleitoral exige o mínimo de 30% de candidaturas femininas na Câmara dos Deputados, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais. Mas a medida não tem se mostrado suficiente para assegurar a participação igualitária das mulheres nos parlamentos. Em uma análise das campanhas eleitorais passadas, os partidos dificultaram o acesso aos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para as candidatas à Câmara dos Deputados. Desde a criação do FEFC, as mulheres estão recebendo mais recursos. Contudo, apesar do aumento desses auxílios, o controle da verba permanece majoritariamente com os homens.

Os relatos das mulheres, tanto à esquerda quanto à direita no cenário político-ideológico, são uníssonos quanto à restrição do poder de decisão. Elas até são consultadas, mas pouco ouvidas, disponibilizando seus nomes apenas para o preenchimento do percentual mínimo de candidaturas exigido por lei, as chamadas candidaturas “laranja”, sem suporte real de estrutura e visibilidade. Temos também a sub-representação feminina na política por conta da sobrecarga nos trabalhos domésticos e na maternidade, um retrato da sociedade estruturalmente patriarcal na qual estamos inseridas, sendo muitas vezes afastadas da possibilidade de trabalhar e estudar.

Segundo o estudo “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, realizado pelo IBGE em 2019, as mulheres dedicam aos afazeres domésticos 21,4 horas semanais, contra 11,0 horas dos homens. O resultado disso é o apagamento de mulheres em espaços de poder, justamente por não se sentirem preparadas para fazerem parte de projetos políticos. Além disso, após quase um século, o voto feminino voltou a ser questionado por uma parcela da população. Esse fenômeno não é um caso isolado, mas uma estratégia recorrente em períodos de crise e de autoritarismo. No Brasil, o voto conquistado em 1932 era restrito a mulheres viúvas ou solteiras com profissão, tornando-se plenamente obrigatório, e equivalente ao dos homens, apenas em 1946. No entanto, o direito pleno ao voto somente foi conquistado com a Constituição de 1988. Os argumentos atuais de contestação a esse direito classificam as mulheres como “más eleitoras” por suas supostas inclinações políticas. Por trás disso reside o machismo sobre o qual se estrutura nossa sociedade. Argumentos como esses reafirmam a exclusão feminina dos espaços públicos e decisórios, reafirmando a ideia de superioridade do masculino sobre o feminino, a qual tem crescido por meio de movimentos como o RedPill, alimentado nas redes sociais.

A baixa representatividade feminina na política brasileira reflete barreiras estruturais, financeiras e culturais que dificultam a competição igualitária das mulheres na política. A regra eleitoral vigente atualmente representa um importante avanço para o fortalecimento e viabilização de candidaturas femininas. Mas, mesmo sendo uma importante forma de corrigir um apagamento histórico, as mulheres ainda esbarram em uma série de dificuldades dentro dos partidos políticos. Precisamos eleger mulheres. Precisamos apoiar projetos que aumentem a nossa voz e o nosso espaço. As mulheres precisam administrar elas mesmas os recursos disponíveis para a organização e financiamento político.

A mobilização contra o voto feminino se amplia em um contexto em que o comportamento político e eleitoral das mulheres ameaça poderes constituídos e, no caso brasileiro, ajudou a derrotar projetos que defendem o fim de direitos conquistados. Assim, a presença feminina na política é fundamental para a democracia. Todos os desafios enfrentados por nós devem ser olhados com atenção por toda a sociedade, a fim de corrigirmos as dificuldades históricas que nos foram impostas.

Quando a leitura virou estética?

Larissa de Matos Gonçalves

Você já viu alguém lendo um livro em um café, no ônibus ou até em uma praça e pensou: “Será que essa pessoa realmente está lendo ou só quer parecer que lê?”. Talvez essa desconfiança diga mais sobre a nossa relação atual com a leitura do que sobre a pessoa que está segurando o livro.

Nos últimos anos, os livros ganharam cada vez mais espaço nas redes sociais. O Bookstagram e, mais recentemente, o BookTok transformaram a leitura em conteúdo: livros são fotografados ao lado de cafés, flores, velas, roupas e cenários cuidadosamente pensados. Não basta mais apenas ler. Muitas vezes, parece que também precisamos mostrar que estamos lendo.

Uma pesquisa publicada pela revista Signos do Consumo, da USP, em 2025, analisou justamente os rituais de consumo literário no Bookstagram. O estudo aponta que, nesse ambiente, a leitura se transforma em um conteúdo “compartilhável e performático”, envolvendo descoberta, resenhas, recomendações e interação. Além disso, os autores mostram como os algoritmos influenciam a visibilidade dos livros e como o consumo literário também pode funcionar como uma forma de expressão de identidade. E talvez seja aí que esteja a questão, o livro deixou de ser apenas algo que lemos e passou também a ser uma maneira de dizer quem somos.

Uma pessoa que publica uma foto lendo um clássico pode estar realmente apaixonada pela obra, outra pode estar tentando construir uma imagem de intelectual, e uma coisa não necessariamente exclui a outra. O problema começa quando nós, como espectadores, passamos a acreditar que toda leitura exposta publicamente é uma espécie de encenação. A pesquisadora Bronwen Thomas, da Bournemouth University, estudou o fenômeno do Bookstagram e observou justamente como os leitores compartilham imagens de seus livros de maneira estética e personalizada, utilizando cenários e objetos para compor as fotografias. Mas a autora também chama atenção para um ponto importante: essas imagens não devem ser automaticamente tratadas como demonstrações vazias de vaidade, pois elas podem criar conexão, discussão e identificação entre leitores, ou seja, talvez seja injusto afirmar que alguém está lendo “só para aparecer”.

Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que existe uma certa performance envolvida. Um estudo sobre adolescentes australianos no BookTok analisou justamente as chamadas selfies, fotos de pessoas ou de estantes de livros, e mostrou como essas publicações podem participar da construção da identidade de quem se apresenta como leitor. O trabalho relaciona essas práticas à performatividade, ao entretenimento nas redes e até à lógica das microcelebridades. Mas será que isso é necessariamente ruim? Eu não acho.

Se alguém quiser tirar uma foto bonita com seu livro, montar uma estante bonita ou compartilhar uma leitura no Instagram, não vejo problema nisso. A estética também pode aproximar as pessoas dos livros. Uma pesquisa brasileira publicada em 2025 sobre o perfil literário Doses de Livros, por exemplo, investigou justamente a influência do Bookstagram na promoção da leitura e analisou como conteúdos nas redes podem contribuir para aumentar o interesse e a frequência de leitura. O problema, para mim, está em outro lugar: quando começamos a achar que precisamos desconfiar da leitura dos outros. Talvez tenhamos chegado a um ponto em que o simples ato de abrir um livro em público precisa ser justificado: se a pessoa lê em um café, dizem que é para tirar foto; se posta imagem do livro, dizem que quer aparecer; se lê um clássico, dizem que quer parecer inteligente; se compra vários livros, dizem que provavelmente nem vai ler todos. No fim, parece que ler deixou de ser suficiente.

A leitura não precisa ser uma performance, mas também não precisa deixar de ser compartilhada para ser verdadeira. Podemos gostar da estética dos livros, postar nossas leituras, trocar recomendações e ainda assim ler porque realmente queremos ler. Talvez a pergunta não devesse ser “ela está lendo para parecer inteligente?”, mas, simplesmente: e se ela estiver lendo porque gosta? Em uma época em que tantas coisas são feitas para serem vistas, talvez o mais estranho seja justamente não conseguirmos imaginar que alguém ainda possa fazer alguma coisa simplesmente porque gosta.

A Torre de Babel moderna

Isadora Galimberti Perim

O algoritmo é, sobretudo, canalha. Certo dia, abre-se o X, falecido Twitter, e depara-se com postagens em turco, russo, italiano; publicações com caracteres cuja existência nem se conhecia. Dias se passam, os posts seguem aparecendo e, agora, além de tudo, o Grok — uma ferramenta particularmente maldita — oferece a opção de traduzir a publicação. Mais dias se passam. Agora, o tal do Grok (inteligência artificial do X) traduz automaticamente, sem nem antes perguntar se entender o que aquela pessoa do outro lado do mundo está comunicando é, de fato, um desejo. Os usuários das redes sociais começaram a comentar: o X virou a Torre de Babel Moderna. E é, de fato, fascinante: alguém posta algo em português, o algoritmo leva aquele post até o feed de um japonês; o japonês, por sua vez, responde a publicação em, pasmem, japonês. Horas depois, o fio de respostas tem posts escritos em português, japonês, russo, francês e italiano. Todos escrevem em suas línguas nativas. Ninguém se preocupa em adaptar ou explicar as gírias ou os ditados populares — mas isso pouco importa. Afinal, algumas confusões que acontecem geram até risadas entre os usuários da rede.

O Grok, no entanto, — e apesar de oferecer a fascinante ferramenta da tradução automática — é, no final do dia, uma inteligência artificial: carece de tato, contexto, humanidade e, acima de tudo, não compreende e nem leva em conta o fator da relatividade linguística. Compreende-se, hoje, que o idioma materno de um sujeito influencia a forma como este entende o mundo, visto que cada idioma possui estruturas e contextos socioculturais próprios. E isso leva a uma constatação antiga: traduzir é um ofício complexo que não pode ser baseado apenas em “substituição” de palavras equivalentes. Uma expressão pode fazer sentido dentro de uma determinada cultura e perder completamente sua intenção quando transportada para outra língua. Gírias, ironias, trocadilhos, referências culturais e expressões idiomáticas dependem de muito mais do que palavras.

Uma pesquisa publicada em 2026 sobre tradução automática identificou justamente essa dificuldade: sistemas de inteligência artificial ainda apresentam problemas para preservar significados culturalmente marcados, mesmo quando conseguem produzir uma tradução linguisticamente adequada. Isso fica ainda mais evidente em uma rede como o X, onde grande parte da comunicação acontece por textos curtos, memes, sarcasmo, gírias e referências que muitas vezes dependem do contexto. Uma tradução pode tornar uma publicação compreensível para outro usuário, mas isso não garante que a piada terá graça, que a ironia será percebida ou que determinada expressão terá exatamente o mesmo peso. Ainda assim, seria injusto tratar essas limitações como motivo para rejeitar a tecnologia.

A tradução automática não precisa ser perfeita para ser útil. Afinal, compreender parte de uma conversa internacional pode ser muito mais valioso do que não conseguir participar dela. No fim, traduzir palavras é relativamente fácil. Traduzir contexto, cultura, humor, intenção e experiência é outra coisa. Talvez essa seja a versão moderna da Torre de Babel: pessoas continuam falando línguas diferentes, mas agora existe uma máquina capaz de construir pontes entre elas. O problema é que compreender uma língua nunca foi exatamente o mesmo que compreender quem a fala.

Vicaricídio como sentença à vida da mulher

Maria Luisa de Souza do Prado

Quando uma mulher ousa romper o ciclo de abusos, seja por separação conjugal, busca da independência financeira ou denúncia à segurança pública, o agressor, para voltar a ter o domínio, utiliza o laço mais vulnerável da mulher: seus filhos. Estamos falando de um crime em que a maior crueldade do agressor é justamente poupar a vida da mulher.

O vicaricídio é o assassinato de filhos não como vítimas fortuitas, mas como um mecanismo para atingir e controlar emocionalmente a mulher. Trata-se de uma morte em vida amparada por um sistema judicial que ainda insiste na ilusão de que um homem violento com a parceira pode ser um bom pai. Não se trata de filicídio comum ou perda de controle; é um atentado calculado contra a mente da mulher.

O marido abusivo com a companheira, após a separação, busca uma maneira de continuar na vida dela, sabendo de cada passo que está sendo dado. Muitas vezes, ele já tentou matá-la, já a violentou de diversas maneiras, mas nunca conseguiu o que queria. Então, poupando a integridade física da mãe, ele a mantém viva sob a dor da perda e o peso da culpa. Um castigo muito mais duradouro e cruel do que o próprio feminicídio. Mas ele pode ser um péssimo marido e um excelente pai, certo? Errado. Um homem que aterroriza a vida de uma mulher nunca foi um pai seguro. O agressor não enxerga os filhos como seres humanos a serem protegidos, mas como uma última ferramenta para continuar torturando quem teve a coragem de ir embora. Para manter esse abuso, mesmo após o fim da convivência física, o agressor passa a recorrer aos próprios mecanismos da Justiça.

Juristas e analistas têm discutido em publicações especializadas, como o Consultor Jurídico (Conjur), que as disputas de guarda e a regulamentação de convivência são frequentemente convertidas em meios legalizados para perpetuar o terror e o controle psicológico. Segundo a doutora em Direito e mestre em Família na Sociedade Contemporânea, Lize Borges, o homem coisifica o filho, transformando crianças em instrumentos para dar o golpe final exatamente onde a mãe é mais vulnerável. A doutrina penal recente sintetiza isso com precisão: eles ‘matam para punir’. Um ato impiedoso que atinge o corpo da criança, mas o alvo real é a sanidade da mãe.

Os defensores da convivência paterna dirão que o direito de visitas não pode ser suspenso por conflitos de casal e que qualquer tentativa de afastamento configura vingança materna ou alienação parental. O discurso soa zeloso na teoria, mas a realidade forense desmente essa suposta neutralidade. Um relatório da Relatoria Especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas revelou ao mundo que a tese da alienação parental se tornou uma ferramenta jurídica sistemática para descredibilizar mães, rotular o medo legítimo como histeria e forçar a entrega da criança a genitores violentos. Dessa forma, ao priorizar o “direito do pai” a qualquer custo, o próprio sistema estatal desarma a mulher e perpetua a violência com a morte dos filhos. Por isso, a proteção à mulher é inseparável da segurança das crianças.

O vicaricídio nunca é uma tragédia passional imprevista ou um surto isolado. Trata-se de um cálculo sádico viabilizado pela própria conivência do sistema judiciário. Ao forçar a convivência de crianças com agressores conhecidos, a Justiça deixa de proteger a família e vira cúmplice da condenação de uma mãe viva, mas sem seu filho.

Foto: Pexels

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