Novas disciplinas devem considerar aspectos da sustentabilidade nas cidades
Por Júlia Finger Ferreira
Em comemoração aos 65 anos do curso de Ciências Econômicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS), quatro economistas participaram do painel “Perspectivas para a Economia do RS e do Brasil” no UCS Teatro, na noite desta terça-feira (10). Durante o evento, os especialistas discutiram os cenários dos setores agrícola, industrial, de comércio e serviços, com foco nos impactos das mudanças climáticas, no período pós-pandemia e nos desafios futuros dos principais setores econômicos. Ainda no evento foi anunciado o novo currículo do curso que deve entrar em vigor no ano que vem. Entre os assuntos que devem ser abordados está o manejamento de recursos no espaço urbano.
Os nomes reunidos para as palestras foram a economista-chefe da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado (Fecomércio-RS), Patrícia Palermo; do economista-chefe do Sistema Farsul (da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul ), Antônio da Luz; do economista-chefe da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL-POA), Oscar Frank; e da economista-sênior da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), Caroline Puchale.

Abrindo as falas da noite, Patrícia Palermo abordou aspectos globais e nacionais da economia. Ela destacou a desaceleração econômica global após a pandemia, marcada por incertezas e tensões geopolíticas. Palermo apontou que, apesar de uma recuperação econômica rápida após a crise sanitária, o Brasil pode enfrentar uma desaceleração nos próximos semestres, com o aumento das taxas de juros e o enfraquecimento do mercado de trabalho. Ela também chamou atenção para a recuperação das cadeias globais de produção e a importância de uma gestão fiscal responsável.
A gente passa a ser mais responsável pelo nosso crescimento quando o mundo cresce menos. Então, o mundo que gera menos impulso econômico, gera mais responsabilidade sobre nós mesmos e também temos um cenário ainda repleto de muitas incertezas e heterogêneo — comenta a especialista.

Já Antônio da Luz, do Sistema Farsul, trouxe a perspectiva do setor agrícola, enfatizando os desafios gerados pelos eventos climáticos extremos, que impactaram a produção rural e levaram a uma queda de dinamismo no setor. Na sua avaliação, as estiagens vividas no Estado em 2022 e 2023 foram ainda mais prejudiciais ao agro em comparação às enchentes que afetaram fortemente as cidades. Ele ainda ressaltou os problemas no meio urbano, que chegaram neste ano, mas vinham se delineando muito antes.
As enchentes e estiagens exigem a implementação de novas políticas anticíclicas para enfrentar as mudanças climáticas e evitar ciclos repetitivos de crise no agronegócio. Segundo Antônio, — estamos sendo passageiros, não estamos conduzindo — , destacando a necessidade urgente de ações que minimizem as perdas no setor causadas por esses fenômenos.

Falando sobre o setor da indústria, Caroline Puchale, economista-sênior da FIERGS, analisou o impacto das enchentes no Estado. Ela alerta para a queda na produtividade e para um “mercado apertado”, que não consegue reter seus funcionários pela falta de flexibilidade.
A economista também destacou a necessidade de reter profissionais mais qualificados na indústria, um desafio que vem sendo enfrentado nos últimos anos. Esse cenário seria impulsionado pelo crescimento da população idosa, por uma educação insuficiente ao contexto e grande migração de profissionais para grandes centros no país.
Carolina pontuou ainda que a região sul do Brasil perdeu representatividade industrial e apontou a necessidade de reverter esse quadro com melhores políticas de educação e modernização tecnológica.
— A indústria precisa se reinventar para fazer com muito pouco, uma produção ainda maior — finalizou.

Por fim, Oscar Frank, representando a CDL-POA, comentou sobre o setor de comércio e serviços. Ele observou um crescimento de 5,6% no terceiro bimestre deste ano em comparação ao ano passado, impulsionado pela recomposição de perdas materiais com as enchentes e pela solidariedade. No entanto, setores como combustíveis e veículos enfrentaram queda, evidenciando a priorização de bens essenciais em tempos de crise. Ele convidou os espectadores a pensar que forma o estado precisa ser reconstruído, analisando como atrair novos investimentos e a repensar os que já existem, mas ele destaca principalmente a necessidade de se pensar soluções para os gargalos estruturais do estado.
Em conjunto, os economistas traçaram um panorama que, embora mostre recuperação rápida, exige atenção às questões climáticas e uma gestão econômica cautelosa para enfrentar os desafios futuros.
65 anos de história
A faculdade de Ciências Econômicas foi um dos cursos formadores da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Segundo o livro “Origens da Universidade de Caxias do Sul — As escolas e as faculdades isoladas”, escrito pelo agora reitor da UCS, Gelson Rech, e pelo professor Jayme Paviani, já havia uma união de esforços comunitários, desde os anos 1950, para criar uma universidade na cidade. Esses esforços levaram à publicação do Decreto Lei nº 60.200 pela Presidência da República em fevereiro de 1967, autorizando a integração das faculdades independentes que existiam na época: Ciências Econômicas, Belas Artes, Direito e Enfermagem.
A Faculdade de Ciências Econômicas de Caxias do Sul teve sua implementação dividida em três anos na década de 1950. Ela foi fundada por um Decreto da Diocese de Caxias do Sul em 1956. Já em 1958, foi reconhecida pelo Governo Federal e, em maio de 1959, foi inaugurada em sessão solene.
O curso de economia foi criado para atender às necessidades de um mercado em crescimento que a cidade vivenciava na época. Caxias do Sul já tinha um número significativo de empresas que buscavam mão de obra qualificada para cargos administrativos. A criação de uma faculdade na cidade já era discutida, mas os cursos ainda não haviam sido definidos. A favorita do empresariado da região foi a de Ciências Econômicas. A ideia da implantação de uma faculdade voltada ao ensino de questões econômicas começou na Câmara de Vereadores, em 1954, com o então vereador Nestor José Gollo.
Dessa forma, em maio de 1956, na sede do Clube Juvenil, em reunião presidida pelo Bispo Dom Benedito Zorzi, foi assinado o decreto da criação da Faculdade de Ciências Econômicas.
A atual coordenadora do curso, Jaqueline Corá, explica como o curso se adaptou às mudanças sociais e econômicas que o Brasil passou nos últimos 65 anos, atualizando seu currículo conforme os cenários econômicos e sociais.
“Nos anos 50, o curso de Economia surgiu em um contexto de crescimento econômico no Brasil. A região, com seu polo metal-mecânico, estava conectada a esse crescimento industrial. Nos anos 60, com a crise econômica e o regime militar, o curso passou a dar mais ênfase ao papel do Estado nas políticas econômicas, refletindo o contexto dos Planos Nacionais de Desenvolvimento”, explica a professora.
Ainda segundo a coordenadora, nos anos 1980, com a crise fiscal e a alta inflação, o foco do curso se voltou para a macroeconomia e as políticas de combate à inflação. Já nos anos 1990, com a privatização de estatais e a abertura comercial, o currículo foi reformulado, incorporando um quarto pilar: a economia de empresas, com disciplinas voltadas para finanças empresariais, planejamento estratégico e econômico. No século XXI, temas como internacionalização e mercado financeiro ganharam mais destaque, alinhando o curso às novas diretrizes e demandas de mercado, a partir desse novo cenário um novo currículo é esperado para o ano que vem.
Assista à linha do tempo do curso. Produção Júlia Finger e Amanda Simon:
Novo Currículo do Curso de Ciências Econômicas da UCS para 2025 deve ter olhar alinhado a sustentabilidade nas cidades
A partir de 2025, o curso de Ciências Econômicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS) vai implementar uma reformulação em seu currículo, buscando alinhar a formação dos alunos às necessidades atuais e às especificidades da região. Segundo a coordenadora do curso, Jaqueline Corá, essa mudança se dá em um contexto de evolução constante da economia e das demandas sociais, refletindo um compromisso com a formação de profissionais qualificados e preparados para os desafios do século XXI.
A coordenadora destaca que, ao longo dos anos, o curso vem incorporando disciplinas que refletem a realidade regional, onde a indústria sempre foi uma força motriz, mas no qual o setor de serviços também tem ganhado relevância significativa. Assim, a grade curricular de 2025 introduzirá novas disciplinas que vão abordar temas emergentes. Entre os assuntos a serem estudados estão:
– Ciência de dados e economia: o novo currículo incluirá linguagens de programação como Python e R, permitindo que os alunos realizem análises econômicas mais sofisticadas.
– Finanças digitais: pensando em um mundo cada vez mais digitalizado, a inclusão de disciplinas voltadas para o mercado financeiro digital tem como objetivo atualizar os alunos sobre novas práticas e ferramentas financeiras.
Além disso, o curso passa a contar com uma disciplina voltada para a Economia das Cidades e Regiões. Com o crescimento da urbanização e os desafios enfrentados nas áreas urbanas — temas discutidos pelos especialistas no evento de comemoração dos 65 anos do curso — , Jaqueline destaca que o objetivo é explorar como os economistas podem contribuir para o desenvolvimento de cidades mais resilientes, sustentáveis e inclusivas, pensando em diferentes contextos. Ela ressalta a importância de o profissional saber administrar os recursos urbanos de maneira eficiente, a fim de atender a todas as necessidades da população.
Ele (o economista) precisa trabalhar como esse recurso pode ser utilizado para atender essas necessidades. Então isso está muito alinhado às demandas atuais dentro do contexto das cidades, porque as cidades têm problemas, problemas na região, na área da saúde, na área da mobilidade, na área da segurança. Um problema gera a necessidade de solução. — finaliza coordenadora.


