Mais que o salário, trabalhadores buscam significação no mercado

Por Amanda Simon e Júlia Finger

Você já parou para pensar o que te atrai mais em uma vaga de emprego? E mais ainda o que te faz permanecer nela: estabilidade ou oportunidade?

Atualmente, até quatro gerações coexistem no ambiente de trabalho, cada uma com necessidades e expectativas diferentes. Esse cenário desafia as empresas, que lutam e buscam novas estratégias para reter talentos.

Carolina Rodrigues, 23 anos, é estudante de Jornalismo e tem uma trajetória voltada à produção de conteúdo esportivo. Atualmente, realiza um intercâmbio estudantil no México, mas isso não a afastou de sua área de atuação ou de um emprego fixo.

Carolina Rodrigues tem como paixão a produção de conteúdo esportivo. Crédito: Arquivo pessoal

Antes da mudança, Carolina acumulava experiência como freelancer, produzindo reportagens e cobrindo jogos de futebol para diversas páginas especializadas. Com um rumo já bem estabelecido, ela continuou a trabalhar mesmo à distância, agora em uma empresa internacional do setor esportivo.

Ela relata que, antes do intercâmbio, chegou a atuar no setor administrativo da padaria da família, mas optou por não seguir nesta direção devido à viagem e a necessidade de uma oportunidade mais adaptável. Hoje, em modelo home office, Carolina consegue produzir conteúdo remotamente, sem horários fixos, apenas cumprindo prazos. O formato flexível foi a solução ideal para quem buscava conciliar a experiência internacional com a continuidade na carreira esportiva.

Mas, não foi apenas o formato que chamou a atenção de Carolina, o salário ganho em euro também foi um grande diferencial, da mesma forma que atrativos como plano de saúde completo e o acesso à academia gratuitos.

Quando perguntada se trocaria de emprego para um modelo mais tradicional, Carolina responde que consideraria, mas destaca que o salário e a carga de trabalho são fatores importantes em sua decisão, já que avalia o tempo para lazer como um fator importante.

Junior é formado em Engenharia Química e possui grande experiência na área industrial. Crédito: Arquivo pessoal

Por outro lado, Junior Ferreira, 48 anos, que atua como gestor em uma empresa do setor do plástico, iniciou sua jornada profissional muito cedo, sua carteira de trabalho foi assinada aos 14 anos. Durante 17 anos, trabalhou na mesma organização, na área de produção industrial, onde foi subindo de cargos. Para ele, a segurança e os benefícios que o modelo oferecia o motivou a permanecer na mesma empresa.

Eu sempre busquei estabilidade e segurança, principalmente por conta da minha família — esposa e filha. O que me manteve 17 anos na empresa foram os benefícios, como o plano de saúde, a participação nos lucros e a segurança do contrato CLT. Além disso, a empresa sempre apoiou minha formação, ajudando com minha graduação, pós-graduação e MBA. Esse suporte foi essencial para o meu desenvolvimento profissional, e por isso acabei ficando lá tanto tempo — relata o gestor.

O contraste entre as trajetórias de Carolina e Ferreira reflete a diversidade de prioridades entre as gerações no mercado de trabalho. Enquanto Junior busca estabilidade, jovens como Carolina valorizam a flexibilidade, mas ambos se beneficiam de um pacote de vantagens que exemplifica o conceito de “CLT Premium”.

O termo “CLT Premium” surgiu nas redes sociais para designar profissionais que estão sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas recebem uma variedade considerável de benefícios, a tendência ganhou destaque no TikTok, onde profissionais, principalmente jovens, que se encaixam nessa categoria, compartilham suas rotinas e os benefícios oferecidos por suas empresas. O termo é genérico e não se refere a um tipo específico de benefício; entre os mais comuns, destacam-se vale-refeição e alimentação com valores superiores à média, além de planos de saúde e academias disponibilizados gratuitamente.

Vídeo de Bia Pastor no TikTok acumula mais de 26 mil curtidas. São diversas as postagens como essa na plataforma. Crédito: Redes sociais/reprodução

A crescente popularidade do termo resultou em uma série de vídeos que explicam essa nova tendência sob a perspectiva do mercado de trabalho, promovendo também um debate sobre o que as gerações mais novas buscam em suas vagas de emprego.

Estabilidade x flexibilidade

O contraste na preferência por algum formato de trabalho no mercado atual pode ser atribuído às diferentes mentalidades dos profissionais que o compõem. Segundo Cintia Felipeto, especialista em Recursos Humanos, tanto na contratação quanto na retenção de talentos, é essencial que as empresas se adaptem aos diferentes perfis presentes no mercado. Profissionais mais experientes, por exemplo, tendem a valorizar a estabilidade e a construção de uma carreira sólida em uma única empresa, mantendo uma visão mais tradicional.

Eles estão acostumados com ambientes menos flexíveis, com foco na produtividade, reservando o lazer e a realização pessoal fora do horário de trabalho — relata a especialista.

Ainda de acordo com Cintia, por outro lado, os profissionais mais jovens preferem maior independência na execução de projetos, com menos cobranças e processos mais ágeis. Eles buscam soluções rápidas e eficientes, evitando longas reuniões. O principal desafio, ressalta a especialista, é reter esses talentos em empresas que não oferecem crescimento acelerado, pois estão constantemente em busca de novos desafios e culturas.

Porém, a alta rotatividade de vagas já se tornou um grande problema para as empresas, independentemente da geração dos trabalhadores. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), no ano passado, foram registrados 7 milhões de desligamentos voluntários, com recordes mensais alcançados em 2024. Para compreender essa tendência, mais de 50 mil trabalhadores que pediram demissão entre novembro de 2023 e abril de deste ano foram entrevistados. Entre os principais motivos para os desligamentos apontados por eles, estão outra oportunidade de emprego e a insatisfação com os salários.

Para minimizar os impactos, algumas empresas têm adotado estratégias como o reforço da cultura organizacional e benefícios flexíveis para reter profissionais, caso de Carolina e Junior. Segundo Cintia, a apresentação da cultura da empresa já no processo seletivo ajuda a alinhar as expectativas dos candidatos. — O profissional pode avaliar se a empresa atende às suas necessidades ao entender o formato de trabalho e os valores que guiam a organização — afirma.

Nesse sentido, os benefícios flexíveis vêm sendo vistos como um complemento ao salário. A especialista explica que, neste formato, os trabalhadores podem escolher, em um sistema de pontos, as soluções oferecidas pela empresa que mais se encaixam nas suas necessidades. O formato também é propício para o empregador, pois benefícios como plano de saúde e auxílio-alimentação não são sujeitos a encargos trabalhistas.

A resposta às mudanças no mercado de trabalho

Os benefícios trabalhistas representam uma conquista relativamente recente para os trabalhadores brasileiros. O consultor Paulo Santos, especialista em gestão de pessoas, explica que, inicialmente, esses contributos eram vistos pelas empresas como uma desvantagem, já que eram considerados pela lei parte efetiva da folha salarial, sujeitos à tributação trabalhista.

— Durante as convenções coletivas, ao não chegarem a um acordo sobre o percentual de aumento dos salários, os sindicatos reivindicaram algum tipo de benefício. E aquilo era visto pelas empresas como uma dificuldade. Se eu oferecer para apenas um, terei que fazer o mesmo com todos — comenta o especialista.

Com a publicação da Lei 10.243, em 2001, uma série de utilidades concedidas aos trabalhadores passou a ser desconsiderada como remuneração, tornando-as isentas de encargos trabalhistas. Essa mudança flexibilizou a CLT, aumentando a competitividade entre as empresas. Santos aponta que, atualmente, os benefícios se tornaram mais atrativos do que apenas o salário, pois os valores oferecidos entram diretamente no bolso do trabalhador.

Mas a escolha dos benefícios oferecidos é um diferencial entre as empresas. O consultor pontua que determinadas concessões podem ser mais atraentes dependendo do perfil do candidato. — Planos de saúde com diversas regalias podem não interessar a alguém mais jovem que busca algo mais básico, só para não ficar desassistido — exemplifica.

Os benefícios flexíveis permitem que o trabalhador escolha o que melhor atende às suas necessidades. A empresa define um valor ou uma quantidade de pontos para cada colaborador e, ao optar por um benefício, esse valor é abatido da conta individual do empregado. Neste formato, é possível adequar diferenças de custos dos colaboradores.

Mesmo assim, muitas empresas ainda não aderiram ao novo modelo. O especialista aponta que, na região da Serra Gaúcha, ainda há resistência por parte dos empresários, devido ao desconhecimento dos detalhes burocráticos desses benefícios aos funcionários. Ele salienta que o formato não tem problemas legais, aumento de custo ou obrigatoriedade de permanência de algum auxílio, baseando-se na escolha de cada colaborador.

A necessidade de significado no trabalho

Contudo, profissionais da área alertam que alternativas como essas adotadas não geram resultados a longo prazo. O diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais da UCS (IPES), Roberto Birch, destaca que a mudança na visão entre as gerações tem causado conflitos no ambiente corporativo.

Ele explica que, antigamente, era considerado vantajoso permanecer 20 anos em uma única empresa, e ter mais de quatro empregos registrados na carteira de trabalho era visto como falta de compromisso. Hoje, por outro lado, ficar quatro anos em um único emprego é interpretado como sinal de acomodação.

As necessidades profissionais mudaram e a nova geração, em particular, busca um sentido em suas funções. Embora salários e benefícios possam atrair profissionais temporariamente, o verdadeiro desafio está em proporcionar significado e participação no trabalho. Nesse sentido, ele aconselha que as empresas promovam a colaboração e abram espaço para debates e ideias dos funcionários.

— Antigamente, o salário era suficiente para manter um empregado. Hoje, se o profissional não encontrar satisfação, prazer e outros tipos de benefícios, ele não permanecerá na empresa — salienta.

Assim como Santos, Birch observa que a região tem enfrentado dificuldades em se adaptar a essas mudanças, em grande parte devido à predominância de indústrias que mantêm uma visão mais tradicional da gestão. Ele relata que, apesar dos esforços da área de recursos humanos em implementar novos benefícios, os problemas de retenção de talentos persistem. “Mesmo aqueles que precisam trabalhar apenas para ganhar dinheiro aceitam isso só momentaneamente. Se não encontrarem significado em suas funções, acabarão saindo”, afirma.

Casos como o de Roberto Angonese, 36 anos, ilustram essa necessidade. Fundador da startup Urupê e da empresa Global Suprimentos, Angonese relata que se sentiu frustrado em um emprego tradicional. Após três anos trabalhando em um escritório de contabilidade, sentiu-se desgastado pela monotonia e pela falta de desafios no dia a dia. Em busca de novas formas de renda, passou a atuar com transporte de mercadorias, onde recebia o dobro do valor anterior. No entanto, um imprevisto o fez perder a carteira, obrigando-o a recomeçar sua carreira.

Roberto Angonese decidiu empreender frente a imprevistos na carreira. Crédito: Arquivo pessoal

Aos 24 anos, motivado pela necessidade, fundou a Global Suprimentos, empresa voltada à produção de embalagens para indústrias. Mais tarde, ao perceber o impacto ambiental gerado pelos produtos, passou a se sentir responsabilizado. Foi então que criou a Urupê, empresa dedicada à destinação adequada desses resíduos. “Se eu faço parte da do problema, será que consigo também fazer parte da solução desse problema?”, reflete o empreendedor.

Hoje, Angonese admite que poderia receber um salário maior se fosse efetivado em uma empresa tradicional, mas que o ganho atual e a satisfação pessoal que a sua empresa lhe proporciona é suficiente. Acredita que, a longo prazo, irá colher frutos melhores do que se tivesse escolhido a iniciativa privada.

A importância da significação tem se mostrado relevante nos dois formatos: CLT e autônomo. Junior Augusto, gestor em uma empresa da área de plásticos, reflete sobre essa necessidade: — O propósito pode existir tanto em um contrato CLT quanto no empreendedorismo, então é realmente importante saber qual é o seu. Ele pode variar de pessoa para pessoa. Para mim, o propósito pode ser ajudar os outros, manter os empregos ou gerar novas oportunidades. Mas, em qualquer caso, você precisa de um propósito que te faça acordar todos os dias e trabalhar. Quando não há propósito, as coisas ficam complicadas. A significação é essencial, independentemente da área que você escolher — finaliza.

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