Queimadas e seus reflexos no ecossistema. Entenda o que foi o fenômeno da “chuva preta” que aconteceu no Rio Grande do Sul
Por Pedro Henrique Bressan e Agnaldo Borges de Souza
Crimes ambientais não são novidade no Brasil. De acordo com o Jusbrasil, o primeiro estrago documentado ocorreu na década de 1960, quando o desmatamento na Mata Atlântica começou a ser intensificado, e a legislação ambiental se tornou uma pauta importante no país.
Em setembro de 2024, foram contabilizados mais de 80 mil focos de incêndio, cerca de 30% acima da média histórica, registrada desde 1998 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE).
Neste ano, as queimadas tiveram como foco as regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil, deixando uma marca não só no ecossistema e meio ambiente, mas também no mercado industrial e na pecuária brasileira. Diante de todo esse desgaste, soluções são propostas para recuperar parte desses setores, porém a necessidade de faturar atua como dificultador.
“Podem ser soluções simples, mas também soluções tecnológicas. Esses setores da economia visam lucro, então nós engenheiros ambientais, por mais que pensemos muito no meio ambiente, precisamos mostrar que isso vai trazer algum lucro para essa organização. Porque senão, não será implementado”, explica a coordenadora do curso de Engenharia Ambiental da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Renattá Cornelli.
Para as regiões mais afetadas, o problema é ainda mais complexo, pois, muitas vezes, os produtores não têm acesso a crédito ou assistência necessária para recuperação das zonas impactadas por essas queimadas. De acordo com Renattá, mais de 90% das áreas atingidas são propriedades privadas.

Estudos apontam Norte e Centro-Oeste como regiões mais afetadas por queimadas em 2024. Fonte: https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/queimadas/situacao-atual/situacao_atual/
Além de números assustadores, as queimadas de setembro trouxeram algo inusitado: uma coloração acinzentada no céu de regiões que não foram afetadas diretamente por esses incêndios, que, junto à chuva, levaram um fenômeno curioso para a casa de moradores do Estado mais ao sul do país.
Uma denominada “chuva preta” atingiu cidades como Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo, entre outras. Segundo o técnico de laboratório do Instituto de Pesquisas Hídricas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Louidi Lauer Albornoz, essa coloração na água da chuva se deve à concentração de fuligem e de metais que foram carregados junto com a massa de ar. O profissional também ressalta que “a qualidade da água reflete a qualidade da atmosfera”.

De acordo com Albornoz, essa foi a primeira vez que um caso assim ocorreu com tanta intensidade, e por essa adversidade foram feitas pesquisas com a água da chuva, algo incomum no IPH.
“O principal impacto que tem é a potabilidade. As pessoas que armazenam essa água para tomar ou para dessedentação de animais foram severamente impactadas, a potabilidade requer uma qualidade da água muito elevada”, destacou Albornoz.
Além da potabilidade, outra consequência é a carga de partículas que são carregadas por milhares de quilômetros pelos rios voadores. Nossa atmosfera costuma conter um (MP10), que é um material particulado com 10 de diâmetro, sendo visível a olho nu. No entanto, dessa vez, foi transportado um (MP2,5), que possui um diâmetro menor que 2,5, sendo assim, “invisível”.
Diante desses riscos com a água e o ar poluídos por resíduos, o alerta foi acesso no setor da saúde pública, tendo em vista que essas partículas podem causar danos físicos, agravando ou até mesmo gerando problemas respiratórios à população exposta a essas condições.
Imagem de capa: Imagem de 30 de agosto de 2022 de sobrevoo na região da Amacro (Amazonas, Acre e Rondônia), em uma área com cerca de 8.000 hectares de desmatamento em chamas. Crédito: Nilmar Lage/Greenpeace/Divulgação


